ESTADO DA NAÇÃO EDUCATIVA

2 09 2008

No meio deste pantanal em que anda a Educação em Portugal e desta verdadeira guerra civil que nos foi declarada pelo Valt… – oh!… desculpem – pela Ministra da Educação, assumo-me como um professor derrotado! Alto, não dêem já ao termo aquele que normalmente se dá! Trata-se de outro tipo de derrota que sinto e vou tentar explicar nestas linhas, aludindo a algumas considerações mais do que repisadas pela opinião pública, mas sobretudo a algo que considero o cerne da questão e, incrivelmente, parece passar despercebido em todas as conversas e debates com que somos metralhados.

Falava eu na derrota que sinto enquanto professor, mas receio que a sinta enquanto cidadão português, pois assisto a um apodrecimento social, político e, pior do que estes, mental e cultural da sociedade portuguesa, cancro que me parece afectar a maioria dos países ocidentais e ditos desenvolvidos.

Ora, se a epidemia é também cultural é, forçosamente, educacional pois a Escola é, ou deveria ser, o principal potenciador de cultura cívica, instrução, sabedoria, enfim, de Educação! Mas tristemente não o é! E não o é, porque as escolas são hoje edifícios pejados de gente que para ali se dirige por mera rotina diária, ignorando por completo o conceito para o qual se inventou a Escola.

A relação entre Professores e Alunos chama-se Processo Educativo. Pressupõe-se (ou melhor, pressupunha-se) que os primeiros eduquem os segundos; os segundos sejam avaliados pelos primeiros e os primeiros sejam avaliados por aquilo que fazem aos segundos; agora pretende-se que os segundos sejam cada vez menos avaliados pelos primeiros; que os primeiros sejam cada vez mais avaliados por aquilo que fazem aos segundos; que os segundos avaliem o primeiros, mesmo sem querer, pois bastam os seus resultados e assiduidade para tal; que os pais dos segundos avaliem os primeiros; que o Ministério avalie os primeiros pela avaliação que estes fizeram aos segundos… enfim… um chorrilho de trapalhadas onde salta à vista que no processo educativo idealizado por este Governo, quem tem de ser avaliado é quem ensina e menos quem aprende.

Ora, eu podia agora dizer aqui mil coisas, já mais do que ditas por todos, mas, vou apenas dizer algo que me parece passar teimosamente ao lado de todas as conversas sobre este assunto.

Será que ninguém percebe, ou quer perceber, que neste processo todo de avaliação docente se está a ignorar aquela que é a maior variável em questão, ou seja, as características de cada aluno? Se eu estivesse cara a cara com a Ministra, apenas lhe dizia isto: olhe, eu gostava de avaliar a senhora enquanto professora, durante uma aula, mas eu é que escolho os alunos, ok? Depois avalia-me a senhora a mim, mas continuo a ser eu a escolher os alunos, ok? No final veremos quem é melhor professor, se eu ou a senhora!!!Será que ninguém entende que se um professor tiver o azar de ser avaliado numa aula dos selvagens do 6ºP pode ter uma má nota, quando esse professor é um profissional excelente no 5ºR, onde os alunos sabem ser e estar e impera o civismo e o respeito, e não estava lá nenhum avaliador para ver?

Será que ninguém entende que o Augusto Inácio quando deu o título ao Sporting passados 19 anos de jejum, foi considerado um herói e seis meses depois foi despedido por maus resultados! O Inácio era o mesmo, mas, ainda me lembro bem, mais de metade da equipa foi vendida e os novos jogadores eram muito mais fracos; como sempre acontece, avalia-se o treinador e despede-se, pois é muito mais fácil do que avaliar 20 jogadores e despedi-los, mesmo estando conscientes da aberração que isso constitui.

Na Educação passa-se exactamente o mesmo e este método de avaliação docente padece deste cancro. Ignora-se por completo a mais forte e importante variável de todo o processo – o aluno! É muito mais fácil dizer que o professor X é incompetente, pois deu uma série de negativas, do que assumir que essas notas foram dadas a pessoas, que não têm qualquer motivação escolar, a maior expectativa de vida que têm é ansiar por um telemóvel melhor que o colega de carteira, fazem da escola uma colónia de férias e onde, sem rei nem roque, fazem de tudo menos trabalhar em prol da sua formação.  

Cairia o Carmo e a Trindade se a Ministra propusesse uma lei (semelhante à que se propala para os docentes) em que um aluno que fosse um verdadeiro indigente na escola, desrespeitasse tudo e todos, pusesse em causa a integridade física e intelectual de colegas e professores, enfim, fosse um péssimo aluno, poderia ser expulso do sistema.

No último «Prós e Contras» estavam lá representantes de toda a comunidade escolar para falar de avaliação de professores; até Presidentes de Câmara falaram de avaliação de professores; no entanto ninguém deu por falta de representantes dos principais clientes deste serviço – os alunos! Muito teria eu gostado de ver na primeira fila dois alunos escolhidos de uma turma em que um deles fosse exemplar a todos os níveis,  e outro colega – um mau aluno; muito teria eu gostado de ver a Fátima C Ferreira perguntar-lhes sobre determinados professores que ambos têm! Não esquecer o factor «exposição pública» que muito condicionaria, por certo, as opiniões do mau aluno; ainda assim, muito teria eu gostado de ver!

Será que ninguém entende que não é justo avaliar alguém segundo critérios e variáveis que lhe são alheios e incontroláveis?

Eu gostava que o Governo avaliasse era o estado em que a cultura portuguesa se encontra, em que as pessoas são socializadas por frenéticos fenómenos de competição e consumismo, em que os valores, o civismo e o respeito há muito foram esquecidos e cujo resultado é toda uma geração de crianças e jovens contaminada por aberrantes modas e estereótipos absolutamente à prova de Educação. E, meus amigos, mandem cá os professores da Finlândia educá-los que eu quero ver os resultados; ou melhor, mandem-nos, a nós, os tão propalados maus professores portugueses, para a Finlândia e verão…

Será que ninguém entende que com a mentalidade e cultura de sociedade que temos não há sistema que resista? Maus professores? Claro que os há, mas há maus profissionais em tudo e não há este regabofe todo, como com os docentes! Então na classe política, é mais fácil contar os bons e, no entanto, o zé povinho avalia-os bem pois até votam neles.

Meus senhores: Acordem de vez para a realidade! Os professores portugueses são iguais aos outros todos. Não admito ser culpado pela degradante cultura instalada e muito menos que me exijam dar boa educação a alunos que, pura e simplesmente, a recusam. Os professores existem para ensinar alunos; a humanização e a socialização, essas vêm de casa e da sociedade; os professores podem incrementá-las mas nunca criá-las!

Dêem-me alunos civilizados, motivados para aprender, escolas com condições de trabalho, pais responsáveis e conscientes das suas funções a montante da escola e venham avaliar-me, caraças!!!

 

Paulo Carvalho

 

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One response

16 10 2008
Fernanda Nunes

Hip hip hurra! Finalmente alguém diz o que deve ser dito sem medos, nem “papas na lingua”
Cada ano que passa recebo alunos pior preparados sem um mínimo de regras, com o desenvolvimento adequado porque não há exigência da sociedade e dos progenitores em relação a eles. E eu sou educadora de infância!
Vêem onde isto começa?

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