UM GRITO DE IPIRANGA!

15 10 2008

Aqui transcrevo um texto brilhante do colega Francisco Silva, cujo conteúdo melhor personifica a revolta que todos sentimos enquanto professores deste país.

14 de Outubro de 2008

De francis1000.silva@gmail.com

Colegas

A minha saudação a todos os que não desistem de lutar pelos seus ideais nem se acobardam.

O meu agradecimento pelas centenas e centenas de emails que recebi desde que em 19 de Março de 2008, imediatamente após a manifestação em Lisboa, escrevi um singelo texto “divulgar” que enviei a alguns colegas.

Continuo a receber diariamente emails de professores que só agora dele tomam conhecimento. Muitos meses passaram, o conteúdo do texto continua a ser actual.

Colegas… muita água passou debaixo das pontes desde 8 de Março de 2008.

A situação apenas e cada vez mais, piorou… piorou… piorou, para todos os professores deste país, como aliás era previsível por quem tivesse os pés assentes na terra, desde que este governo tomou posse e esta ministra assentou arraiais.

Nesta altura do “campeonato” já todos fizemos profundas reflexões individuais sobre o nosso papel enquanto professores … enquanto cidadãos empenhados no futuro do seu país … sobre o futuro dos nossos filhos, nesta sociedade…

Dada a conjuntura por que passamos … reflectimos todos muito…

Sou professor há 30 anos. Percorri o país arrastando os meus filhos de terra em terra. Mudei-me de casa vezes sem conta… O dinheiro que ganhava, tinha que ser contabilizado para conseguir pagar as contas mensais. Fui abalroado várias vezes na estrada, quando me dirigia para o trabalho.

Dediquei-me, sempre aos meus alunos como se fossem meus filhos. Contam-se pelos dedos das minhas mãos, os alunos que reprovei em 30 anos. Dei à escola as minhas horas vagas, a minha total disponibilidade, o meu saber e o meu empenhamento. Fiz do ensino a minha religião. E…não fui só eu…conheço centenas, senão milhares de professores “missionários” que fizeram muito mais do que eu…

Hoje digo basta !!!

Por feitio próprio sempre fui educado, cordato, conciliador. Mas… tudo muda na vida.

O poder em Portugal é DEMOCRÁTICO porque foi eleito, mas é antidemocrático nas suas práticas para com os cidadãos.

O Ministério da educação demonstra comportamentos, desde 2005, que nada deixam a dever à prática das ditaduras sul americanas, de tão má memória.

A ministra da educação tem revelado, desde que assumiu funções, um ódio visceral contra os professores deste país. Toda a sua acção tem sido no sentido de “esmagar” os 140.000 docentes portugueses. Não vou enumerar toda a prática legislativa, todo o discurso público, todas as conversas particulares que são tornadas públicas em que os professores são calcados, humilhados e vilipendiados por esta senhora e pela sua equipa. Há, aqui, claramente, um problema psicótico ao qual os professores são alheios, mas do qual acabam por ser vítimas.

Os professores deste país sempre lutaram, com os meios de que dispunham, para a valorização dos seus alunos e da escola pública. Não são os professores os responsáveis pelo insucesso e abandono escolar… São os políticos!!!

A situação anímica dos professores nunca atingiu níveis tão baixos. Recebi emails de colegas que revelam estados de “alma” de profundo abatimento e desânimo.

É exactamente isso que esta equipa político ministerial pretende, quebrar-nos, espezinhar-nos, tornar-nos tapetes, criados para todo o serviço.

Na marcha do 8 de Março, em Lisboa, mostrámos que estávamos presentes, não nos sujeitávamos, estávamos dispostos a lutar pelos nossos direitos e pela nossa dignidade.

Os sindicatos, órgãos representativos, lideraram os contactos com a tutela e tiveram o apoio de toda a classe. Se bem que reconheçamos a sua importância em toda a nossa luta, o seu papel ficou gravemente comprometido quando assinaram, com a ministra, o memorando de entendimento, altamente lesivo para o interesse dos professores e que compromete a curto prazo a sua liderança neste processo.

No dia de hoje, com o desenrolar dos acontecimentos recentes, já não há mínima dúvida, a ministra conseguiu parar os sindicatos, mas não parou os professores.

Como é que sindicalistas “de carreira”, extremamente experientes, cometeram um erro estratégico tão grave, numa luta tão difícil, é coisa que só o tempo virá, um dia, a esclarecer.

A luta continua.

Não aceito, nem nunca aceitarei, um estatuto da carreira docente vexatória que procura dividir para reinar. Os professores não são militares, não há generais, capitães e soldados. Todos somos pura e simplesmente PROFESSORES, numa carreira horizontal em que a missão de todos e de cada um é ajudar a aprender e formar cidadãos na verdadeira dimensão da palavra.

Não aceito, nem nunca aceitarei um regime de avaliação aviltante, cuja única finalidade é humilhar-nos, enterrar-nos em papéis e degradar a nossa condição profissional.

No meu primeiro texto “divulgar” sugeri que adoptasse-mos como forma de luta a estratégia de Gandhi… a resistência passiva. As circunstâncias vieram demonstrar que já não há uma forma privilegiada de luta. Todas são aceitáveis. Cada professor, cada escola, deve sugerir e aplicar formas de luta conducentes a tornar inviável esta política. Não somos um rebanho com um pastor. Somos pessoas inteligentes que, contra a força bruta, havemos de mostrar a nossa razão e fazer valer os nossos direitos, os dos nossos alunos e valorizar o sistema de ensino público em Portugal.

Precisamos da força de todos e de cada um. É nos momentos mais “negros” que se avalia a fibra das pessoas Não se deixem intimidar.

Eu não desisto. Tenho a certeza que havemos de ganhar esta luta. Sócrates, o de fraca memória, há-de partir, Maria de Lurdes Rodrigues será esquecida, os secretários de estado… coitados… quem são???

Antes de terminar, duas referências essenciais. Em primeiro lugar uma chamada de atenção para a verdadeira campanha de intoxicação da opinião pública, utilizando publicidade paga em jornais, referências constantes nas televisões, desdobráveis enviados para as escolas, exaltando os feitos deste ministério e deste governo. Se estão tão certos da obra feita, então porque não confiam no julgamento sereno dos portugueses, em vez de andarem a esbanjar o dinheiro público??? Cá se fazem, cá se pagam… Os professores portugueses e as suas famílias não têm memória curta!!!

A segunda diz respeito às formas de luta futuras.

No dia 15 Novembro lá estarei, com sindicatos ou sem eles. Faça frio ou calor, chova, troveje ou caia neve.

Gritarei pelos direitos e dignidade dos professores, da qualidade de ensino, contra a prepotência, a arrogância e a estupidez. Estarei em 15 de Novembro e sempre que a unidade dos professores o reclame, em defesa de VALORES.

Lembrem-se, colegas, a luta será longa, mas será tanto mais eficaz quanto mais pública se tornar. É exactamente aí, o ponto fraco de Sócrates.

Saudações a todos.

Do colega

Francisco da Silva

Citado por

Paulo Carvalho

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22 responses

15 10 2008
mariaflor

Achei formidável este basta de um homem e professor,por estarem todos tão calados é que chegou a este estado de injustiça para com os professores,portanto força homens de hoje façam valer os vossos direitos,talvez esta DEMOCRACIA
MASCARADA desapareça para nascer um governo de BEM.
Um BRAVO ao BASTA.

15 10 2008
Tiago

Muito bem.
Onde assino?

Abraço
Tiago
http://democraciaemportugal.blogspot.com

15 10 2008
M Bento

De facto já não margem para mais tolerância. Está na hora de nos deixarem ser apenas aquilo que nunca deveríamos ter deixado de ser: professores que apenas querem ensinar e educar os nossos alunos.

15 10 2008
Vítor Ramalho

Os traidores da FENPROF já estão a tentar dividir a classe.
Quanto mais afastados da máfia dos sindicatos melhor.

15 10 2008
Norberto Coelho

Diz o Povo ” Quem cala concente ” .

Sem luta nada nos é dado, mesmo quede Direito !

A Luta Continua . Pela escola para todos , deixem os professores ensinar e as crianças APRENDER ! ! !

15 10 2008
Sandra Charrua

Dia 15 de Novembro lá estaremos…
Nós somos mais que isto…Mas eles sabem…e receiam.
Vamos todos dar o grito do Ipiranga… em uníssono!

Obrigada pelo reforço positivo, Francisco!

16 10 2008
alice Sainhas

Diz o Povo ” Quem cala concente ” .

O nosso país é máfia…
Vamos acabar com esta Corrupção.
Só se consegue com a LUTA mais LUTA
Obrigada pelo teu alento Francisco
Alice Sainhas

16 10 2008
Teresa Pedro

De acordo, mas o problema centra-se no que realmente irá acontecer. Desabafos, manifestações, artigos melhores ou piores na comunicação social, mas não ficará tudo igual?
De uma coisa tenho a certeza. Dos meus vinte e muitos anos de serviço, este é o primeiro em que não tenho vontade de ir para a escola. O desânimo e a insatisfação estão instalados. E porquê? Porque se chega à conclusão que tudo o que nos rodeia é um perfeiro “Triunfo dos Porcos”.

16 10 2008
Ana Lourenço

Este é um exemplo a seguir

Temos de dar as nossas opiniões, sem medo e defender aquilo em que acreditamos.
Devemos torná-lo público, porque a consciência que não estamos sós é fundamental. Sózinhos somos o grão de areia, mas juntos fazemos a praia.

Não fiquemos à espera que alguém ou os outros resolvam o nosso “problema”. Temos de participar ainda que muito cansados fisíca e psicológicamente. O Objectivo desta politica, também é este. Submergir-nos de tal forma que não tenhamos tempo nem disposição para refletir, expor e debater as nossas ideias, e actuar.

Vamo dia 15, expor mais uma vez o nosso NÃO a este sistema de avaliação dos professores, MAS… é também fundamental, dizar NÂO nas nossas escolas, com os nossos colegas, nos grupos, em departamento, toda a escola (isso seria o ideal) tomando posições claras e fundamentadas de recusa deste reduzir a nossa tarefa a números de sucesso falsos, de aparente eficiência com um cem número de papeis comprovativos das “qualidades” das nossas práticas, tarefas e funções, de assumirmos “papeis” que não nos cabem e dar respostas de excelência ainda que fora das nossas competências e sem condições essenciais que o próprio sistema de ensino, deveria por à disposição dos professores para estes trabalharem com qualidade.

Sou, apenas mais uma entre os professores que escolheu esta profissão por paixão. Tenho 22 anos de actividade acreditando que participava numa tarefa que fazia crescer futuros homens e mulheres enriquecidos de saber e cultura . Vejo-me a praticar a “palhaçada” do sucesso a 100%, vejo-me a trabalhar a 200 à hora sem me mover do mesmo sítio. Sinto-me frustrada, profundamente cansada e violentada. Desculpem o dasabafo.

Vamos à luta!! Por favor

16 10 2008
elisa costa

Os bons professores anseiam pela reforma, mesmo que a perder regalias! A situação está caótica, mas a ministra e o seu secretário de estado não se dão conta! Até quando?

16 10 2008
Isabel

Colega
Como eu o entendo. Nunca pensei em reforma porque estar com crianças é o MELHOR do MUNDO mas agora coitados dos nossos alunos, que tempo sobra para eles? É só burocracia!

Estamos lá em força dia 8 e dia 15

VIVAM todos os PROFESSORES

17 10 2008
Sdias

Sem tempo ou alento para mais, aqui fica um PARABÉNS!! pela sua coragem! Obrigada pela força!
S.

17 10 2008
conceição

adoptássemos
consente
sem (0) número cem (100)

17 10 2008
Helio

Voces professores ganham mais do que qualquer trabalhador “normal” e ainda se queixam???? Não percebo sinceramente. Eu mato-me a trabalhar para chegar ao fim do mês e receber 600€ e sou licenciado em programação e sistemas de informação. Mas vocês professores, talvez levados pelo pior sindicato português que é a FENPROF, estão sempre a queixar-se disto e daquilo. Tende vergonha, e cumpram apenas aquilo que vos exigem, que é ensinar, e isso muitos de vocês nem sabem fazer, pois se soubessem eu nao tinha de perder horas e horas a dar explicações a vários estudantes.

18 10 2008
Fernando Amaral

Este rapaz, com esta mensagem, demonstra duas coisas:
1-Deve ser um fraco programador – atendendo ao ordenador – Programador a ganhar 600%?
2-É como o Miguel Sousa Tavares: Demonstra uma ignorancia muito apurada nas afirmações que apresenta.

19 10 2008
A. Araújo

Parabéns colega. No dia 8 e 15 lá estarei juntamente com cento e tal mil para dizermos basta de anormalidades.

Abraço

19 10 2008
Paula Gaspar

Mais uma colega missionária por este país, cansada de lutar contra a corrente e sentindo-se abandonada num mundo em que não entende, só estas palavras é que nos animam, 15 de Novembro lá estaremos!!

19 10 2008
Paula Gaspar

Já agora ao comentário do Sr. Hélio, queria perguntar se está a 350 Km de casa longe dos filhos e se acha que ganhar 1000 euros paga as despesas!! Pois eu para ajudar a pagar as despesas de deslocação tenho que além de dar aulas, dar explicações, limpar escadas de prédios!! Pensa que a vida de professor é mar de rosas?? Está longe de conhecera nossa realidade. Sabe por acaso o dinheiro que temos que gastar por conta própria, se queremos por exemplo ter materiais para experiências, geoplanos, materias básicos que as escolas não têm somos nós que compramos para dar-mos o nosso melhor!! Sabe os rios de dinheiro que gasto em tinteiros por os da escola são contados a dedo e não chegam para nada?? Primeiro informe-se e depois comente!! Pois não é fácil continuarmos a ser julgados por pessoas que não estão no sistema e não sabem a pressão que sentimos!!

21 10 2008
margarida

Colega
Gosto de o ler, embora nunca o tenha comentado.
Sou professora por opção e não por exclusão…há trinta e muitos anos.
Fui-o por inteiro, no dar e no acreditar…mas estou de saída…exausta, desistente, indignada!
Reconheço, comigo “eles” talvez tenham conseguido.
Mas não aceito, não engulo, não admito, que uma carreira em que tudo apostei, seja desconsiderada, vilipendiada, humilhada desta forma!
E como dizia Manuel Freire…enquanto houver um professor de alma e coração, “há sempre alguém que resiste…há sempre alguém que diz NÃO…” Pelo menos nisto estaremos juntos!
Um abraço
Anamar

PS: Sobre o comentário no mínimo “triste” do sr. Hélio (a minha formação impede-me de o classificar mais adequadamente), não merece sequer os minutos que perdemos a abordá-lo…
Bem sábia é a voz do povo: “Não vá o sapateiro além da chinela!…”:

21 10 2008
ruinzolas

Já há muito não vinha aqui. Mas vejo que nada mudou.
Basta, aliás, atentar na escrita neste blog para acreditar que o ensino em Portugal está mesmo mal.
Se já nem os professores sabem escrever correctamente a nossa língua, imaginemos a qualidade daquilo que ensinam aos nossos filhos.

Hélio: Você ganha 600€ por ser programador. Mas se for mau na sua função é despedido! Agora pense nas dezenas de milhares de maus professores protegidos por progressões automáticas, falta de avaliação e pela total ausência de responsabilização no sucesso ou insucesso dos alunos. E pior ainda… não há como despedi-lo.

21 10 2008
Silvana Paulino

Num E-mail que aliás, tomei a liberdade de actualizar com esta Escola e a que dei o Título de Bola de Neve vi este Blogue. Na falta de um E-mais deixo aqui.
Cumprimentos calorosos
Silvana Paulino

Publicado no MEP http://www.movescolapublica.net
21/10/08

Subject: Agrupamento de Escolas Forte da Casa pede suspensão desta avaliação
To:

Um abaixo assinado de professores e professoras deste agrupamento da região da Grande Lisboa pedindo a suspensão da avaliação vai ser debatido no Conselho Pedagógico esta quarta-feira.

O movimento de contestação que se espalha por várias escolas e agrupamentos de norte a sul do país é um contributo imprescindível para a mobilização geral que se prepara para Novembro.

O Movimento Escola Pública agradece que nos façam chegar todas as tomadas de posição de que tiverem conhecimento, para as divulgarmos.

MOÇÃO COM VISTA À SUSPENSÃO DA APLICAÇÃO DO NOVO MODELO
DE AVALIAÇÃO EM NOME DE UMA AVALIAÇÃO PROMOTORA
DO SUCESSO E DA DIGNIFICAÇÃO DA CARREIRA DOCENTE

EXMA. SRª
PRESIDENTE DO CONSELHO PEDAGÓGICO DO
AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DO FORTE DA CASA

Os Professores e Educadores do Agrupamento de Escolas do Forte da Casa, abaixo assinados, declaram o seu mais veemente protesto e desacordo perante o novo Modelo de Avaliação de Desempenho introduzido pelo Decreto Regulamentar n.º2/2008.

Não questionam a avaliação de desempenho como instrumento conducente à valorização das suas práticas docentes, com resultados positivos nas aprendizagens dos alunos e promotor do desenvolvimento profissional.

Consideram que a Avaliação de Desempenho constitui assunto demasiado sério, que deve resultar de uma ampla e séria discussão, não devendo, por isso, estar sustentada em arbitrariedades, desconfiança e vazio de conteúdo. Advogam um modelo de avaliação resultante de um amplo debate nacional consistente entre professores – seus legítimos representantes – e a tutela que motive os docentes e fomente a qualidade e o prestígio da escola pública. O Modelo de Avaliação regulamentado pelo Decreto Regulamentar nº. 2/2008 não assegura a justiça, a imparcialidade e o rigor, nem valoriza, de facto, o desempenho dos docentes.

Os critérios que nortearam o primeiro Concurso de Acesso a Professor Titular geraram uma divisão artificial e gratuita entre “professores titulares” e “professores”, valorizando apenas a ocupação de cargos nos últimos 7 anos, independentemente de qualquer avaliação da sua competência pedagógica, científica ou técnica e certificação da mesma. Nesta “lotaria ministerial” ficaram de fora muitos professores com currículos altamente qualificados, com anos de trabalho dedicado ao serviço da educação e com investimento na sua formação pessoal, gerando nas escolas injustiças aviltantes. Semeia-se terreno para, no nosso quotidiano escolar, se desencadearem situações paradoxais como, por exemplo, os avaliadores possuírem formação científico-pedagógica e académica inferior aos avaliados.

Este Modelo de Avaliação configura, igualmente, uma lógica burocrática desviando os reais objectivos que devem presidir ao processo de ensino-aprendizagem e criando outras situações paradoxais como a existência de avaliadores oriundos de grupos disciplinares muito díspares dos pertencentes aos dos avaliados.

Por outro lado, a sua apressada implementação tem desviado as funções dos professores para tarefas burocráticas de elaboração e reformulação de documentos legais necessários à implementação deste Modelo de Avaliação em detrimento das funções pedagógicas. Estaremos, deste modo, a pensar numa escola para todos e de cada um, como preconiza a LBSE e à medida da realidade específica deste Agrupamento, de acordo com o regime de Autonomia, Administração e Gestão das escolas? As escolas são, neste momento, cenário de professores afogados em burocracia, instabilidade e insegurança, situação inconciliável com o verdadeiro propósito da docência. Como pode haver ensino de qualidade e sucesso escolar se os professores investem a maior parte do seu tempo (que no momento ultrapassa largamente as 35 horas semanais) na elaboração e preenchimento de um emaranhado de documentos burocráticos nos quais ancora este Modelo de Avaliação?

Não é legítimo que a avaliação de desempenho dos professores e a sua progressão na carreira se subordine a parâmetros como o sucesso dos alunos, o abandono escolar e avaliação atribuída aos seus alunos. Desprezam-se variáveis inerentes à realidade social, económica, cultural e familiar dos alunos que escapam ao controlo e responsabilidade do professor e que são fortemente condicionadoras do sucesso educativo.

Neste registo, este modelo não discrimina positivamente os docentes que leccionam turmas com situações problemáticas e com maiores dificuldades de aprendizagem. A imputação de responsabilidade individual ao docente pela avaliação dos seus alunos configura uma violação grosseira do previsto na legislação em vigor quanto à decisão da avaliação final do aluno, a qual é da competência do Conselho de Turma sob proposta do(s) professor (es) de cada área curricular disciplinar e não disciplinar.

Os docentes deste Agrupamento rejeitam a penalização do uso de direitos constitucionalmente protegidos como sejam a maternidade/paternidade, doença, participação em eventos de reconhecida relevância social ou académica, cumprimento de obrigações legais e nojo, nos critérios de obtenção de Muito Bom ou de Excelente.

Rejeitam, igualmente, um modelo que impõe uma avaliação entre pares, parcial e perigosa, porque criadora de um péssimo ambiente na escola. Esta avaliação é por demais injusta e geradora de desigualdades na medida em que aqueles que vão avaliar (coordenadores e avaliadores) não serão avaliados por um suposto inspector, pelo menos no presente ano lectivo.

Por outro lado, a grande maioria não tem formação nem experiência em supervisão que lhe permita a avaliação dos seus pares. A formação que o Ministério da Educação tem vindo, recentemente, a proporcionar aos avaliadores, para além de não abranger uma parte significativa dos mesmos, é perfeitamente extemporânea, dado que decorreu, em grande parte, já depois do início do novo ano escolar, numa fase em que tudo deveria estar pronto para o arranque do “dito processo avaliativo” e em que os professores andam sobrecarregados com toda a parafernália de actividades inerentes ao funcionamento do presente ano lectivo.

O horário de trabalho dos professores imposto pelo Ministério da Educação não se ajusta às inúmeras tarefas e funções que lhes são atribuídas ou solicitadas. Dez ou onze tempos de trabalho individual não são suficientes para a planificação de aulas, a análise das estratégias mais adequadas, a criação de recursos diversificados e inovadores, a elaboração de recursos para os apoios educativos e para os alunos que exigem um ensino diferenciado, a preparação de instrumentos de avaliação diagnóstica, formativa e sumativa, a correcção dos mesmos, a reflexão sobre os resultados, a reformulação de práticas, … tudo isto multiplicado por uma média de cem alunos; cinco, seis ou sete turmas; três, quatro ou cinco níveis. Para além destas funções, há ainda a participação nas reuniões dos órgãos de gestão intermédia sem esquecer a dinamização/participação em actividades extra-curriculares e de intervenção na comunidade educativa que também constituem parâmetros da actual avaliação dos docentes.

Com que legitimidade impõe o Ministério da Educação aos professores uma avaliação que lhes vai consumir o tempo e a alma com reuniões, papéis e relatórios, em prejuízo claro da sua vida pessoal, familiar e, sobretudo, profissional, porque, quer queiramos quer não, os principais lesados serão sempre os alunos.

E os avaliadores? Além de professores com todo o apelo que a função exige, terão que inventar tempo para pôr de pé uma estrutura avaliativa megalómana que o Ministério da Educação criou e que ele próprio não é capaz de sustentar, como se pode ver pela incapacidade de preparar e colocar no terreno inspectores para avaliação dos Coordenadores.

Num Agrupamento como o do Forte da Casa, os avaliadores são também, em grande parte dos casos, Coordenadores de mega- departamentos, e, por inerência de funções, membros do Conselho Pedagógico e, por inerência ainda, membros da Comissão de Avaliação de Desempenho, e avaliadores de uma dúzia de colegas, e ainda, deverão constituir exemplo para os mesmos.

Estes super-homens ou estas super-mulheres são “presenteados” com um tempo de 45 minutos semanais, reduzidos à sua componente não lectiva, para avaliar quatro pessoas. Feitas as contas, o avaliador terá, anualmente, entre oito a nove tempos para avaliar o seu par.

Se retirarmos a este “bolo” seis tempos que correspondem a três aulas assistidas, sobrarão dois ou três tempos para a reunião de “negociação” dos objectivos individuais com o avaliado, para as reuniões antes e depois de cada aula assistida, para a reunião final entre avaliadores e avaliado, para a construção de grelhas de observação, para a análise de todas as evidências e documentos necessários ao preenchimento das grelhas de avaliação (planificações, sumários, portefólios, actas, etc.), para a ponderação da própria avaliação final, etc., etc., etc. Há ainda a salientar a situação dos avaliadores não Coordenadores de Departamento aos quais são delegadas competências, não tendo ainda recebido qualquer formação específica; serão simultaneamente avaliados pelo seu Coordenador.

Este Ministério não pode pôr de pé um sistema avaliativo construído sobre o desrespeito, a anulação e a exploração dos professores.
O regime de quotas impõe uma manipulação dos resultados da avaliação, gerando nas escolas situações de profunda injustiça e parcialidade, devido aos “acertos” impostos pela existência de percentagens máximas para atribuição das menções qualitativas de Excelente e Muito Bom, estipuladas pelo Despacho n.º 20131/2008, e que reflectem claramente o objectivo economicista que subjaz a este Modelo de Avaliação.

Enquanto todas as limitações, arbitrariedades, incoerências e injustiças que constituem este modelo de avaliação não forem corrigidas, e, ainda que, no presente ano lectivo, o modelo se encontre, apenas, em regime de experimentação, os professores signatários desta moção, por não lhe reconhecerem qualquer efeito positivo sobre a qualidade da educação e do seu desempenho profissional, solicitam ao Conselho Pedagógico a suspensão de toda e qualquer iniciativa relacionada com a avaliação por ele preconizada.

Agrupamento de Escolas do Forte da Casa, 15 de Outubro de 2008
Os professores signatários,


http://silvanapaulino.blogspot.com

21 10 2008
maria

Em relação ás datas da Manifestação,gostaria de deixar aqui a minha posição e ao mesmo tempo apelar para a UNIÃO.
Afinal será que não somos TODOS PROFESSORES, quer sejamos sindicalizados ou não?
Afinal não estaremos todos a lutar pela dignificação da nossa Profissão?
Vamos mostrar ao Governo que apesar da nossa cor política,se a tivermos,apesar de ser sindicalizado(a) ,se o formos,ou se pertencemos a um movimento , o nosso objectivo é o mesmo:SERMOS PROFESSORES TRATADOS COM RESPEITO E DIGNIDADE.
Para separação da Classe já basta os TITULARES E OS OUTROS!
AINDA VAMOS SER OS QUE PERTENCEM A UM MOVIMENTO E OS OUTROS?

jÁ BASTA DE DIFERENCIAÇÃO,AFINAL ESTAMOS AINDA NUM PAÍS DEMOCRATICO!
TODOS UNIDOS FAREMOS A DIFERENÇA!
Ando atenta a tudo o que aperece sobre esta materia e pessoalmente acho que o dia 8 é o mais indicado.Não vamos mostrar desunião,iremos a 8,a 15 ou as vezes que forem necessárias mas sempre com o mesmo espírito, e se temos que primeiro criticar alguém esse alguem é a Ministra da educação e os seus “pagens”.

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