APOIADO!!!

4 11 2008

Aqui deixo mais um manifesto pessoal de um colega que subscrevo e, pela qualidade do escrito, decidi postar aqui!

«Primeiro, eles vieram buscar os comunistas.
Não disse nada, pois não era comunista;
Depois, vieram buscar os judeus.
Nada disse, pois não era judeu;
Em seguida, foi a vez dos operários.
Continuei em silêncio, pois não era sindicalizado;
Mais tarde, levaram os católicos.
Nem uma palavra pronunciei, pois não sou católico.
Agora, eles vieram-me buscar a mim,
e quando isso aconteceu, não havia mais ninguém para protestar».
 
Bertold Brecht
 
 
Colegas e amigos,
 
Há momentos na história de um país em que é criminoso ficar calado. Em relação ao futuro da educação pública em Portugal, vivemos um desses raros momentos que a história nos concede…
 
Comecei a dar aulas há 10 anos. Ao longo destes 10 anos, senti sempre saudades da escola durante o mês de Agosto. Este ano, pela primeira vez, não!
 
De há 10 anos a esta parte, que assisto à degradação do ensino, à institucionalização da mediocridade! Para tudo, a resposta é só uma, ano após ano: mais e mais papel! Mais do que a degradação da nossa profissão, assusta-me assistir impávido e sereno a como nos conformamos, ano após ano, em baixar os níveis de exigência a um mínimo indecente.
 
.
 E, para tudo isto, a solução é sempre mais uma “tabela”, uma “grelha”, uma “planificação”, uma “justificação”…Não interessa se a planificação é para cumprir ou se é útil, interessa que fique arquivada. Não interessa se a “justificação” é útil e necessária, o que importa é que ela exista para nos “protegermos”…Dos pais e dos inspectores, esse papões!
 
Não concordamos, mas preenchemos na mesma! Não concordamos, mas há muito que interiorizámos a cultura do medo e de não questionar…Aumenta a indisciplina? Não faz mal, faz-se mais um papel; Os alunos não aprendem? Não faz mal, faz-se mais um papel; É necessário avaliar os senhores professores? Não faz mal, faz-se mais um papel!
 
Basta de “cultura do medo” (dos pais, dos recursos, da inspecção,…)! É necessário uma cultura de amor próprio, de amor pela profissão e pelo simples acto de ensinar.
 
Claro que algum tipo de avaliação dos professores é necessário e urgente! Sobretudo se tiver como objectivo melhorar a qualidade do ensino…Não estamos todos cansados de quem, entre nós, é indigno de ostentar o nome de “professor”? E será que esta avaliação vai permitir corrigir essas situações, os erros individuais de cada um de nós ou até algum “defeito corporativo” da classe? Será que esta avaliação contribuirá para melhorar aquilo que os nossos alunos efectivamente aprendem?
 
Ela não se destina a ajudar os professores a melhorar as suas prestações e auxiliar, desse modo, os nosso alunos. Não se destina a “punir” os medíocres ou a premiar a “excelência”…
O que o ministério pretende é que entremos na perigosa jogada da hipocrisia…Para eles apenas interessa passar a mensagem ao país: “Estamos a avaliar os professores, estamos a aumentar o grau de exigência e de rigor do ensino!”
 
E nós, que sabemos ser falso, pactuamos! Vamos a manifestações ao Sábado gritar “palavras de ordem” e na Segunda preenchemos as grelhas inúteis que nos impingem?!
 
Ou seja, no fundo não concordamos com esta avaliação para professores. No entanto, parecemos estar dispostos a pactuar com ela quando nos deixamos arrastar para uma lógica, do tipo:
“Eu não concordo com esta avaliação, nem lhe vejo qualquer capacidade de melhorar o actual estado das coisas, mas vamos pactuar com ela na esperança que não dê em nada…Vamos levar isto sem ser muito a sério, fazemos todos os objectivos mínimos de modo a termos todos “bom” e, pronto, está o assunto arrumado!”
 
E quando quisermos ensinar aos nosso filhos e alunos a importância de nunca sermos hipócritas, o que faremos?! Olhamos para o chão e coramos de vergonha!
 
 
Das duas uma: Ou temos a coragem de assumir que não concordamos com esta avaliação e recusamo-nos a cumpri-la; ou temos a coragem de assumir que concordamos com ela e cumprimos tudo a 100%, com todas as implicações deste acto.
Não me obriguem é a aceitar situações intermédias, por medo ou cobardia. Com coragem a favor ou com coragem contra!
 
 
Exliquem-me: em que é que esta avaliação vai contribuir para premiar a excelência dos professores? Em nada! Em que é que esta avaliação vai contribuir para melhorar a qualidade do ensino? Em nada!
 
E então,vamos pactuar hipocritamente com algo em que não acreditamos?! E porquê? Por medo?!
 
Eu também tenho medo…Sobretudo de um dia olhar para o espelho e perceber que traí os ideais a que me comprometi defender quando abracei esta profissão!
 
Poderei eu exigir aos meus alunos que sejam honestos e rigorosos e, ao mesmo tempo, pactuar com uma avaliação que acho nefasta para a minha profissão? Expliquem-me, que eu não percebo!
 
 
Claro que eu sei que há coisas que estão mal no ensino por culpa nossa. Sou capaz de enumerar algumas. Infelizmente, nenhuma delas será resolvida com este processo que nos querem impor…
 
À ministra não interessa promover a excelência, porque esta é sempre perigosa para o poder. Porque pensa, porque não obedece cegamente, porque questiona, porque não se dobra e porque, quando é chegada a hora, sabe sempre dizer que “não” e de forma digna.
À ministra interessa que nos rendamos à cultura “de não criar ondas”, à “cultura do medo”, “à cultura da tabelazinha”, à “cultura das aparências”, no fundo, à “cultura do Bom”!
 
Não contem comigo para isso! Se tenho medo? Claro que sim, só um louco não teria…Também me preocupa o futuro, as contas por pagar e a minha carreira…Mas interessa-me mais o futuro dos meus alunos, a minha dignidade como profissional e ser humano e a minha consciência.
 
Não peço que pensem como eu e que me sigam pelas minhas ideias. Sigam a vossa consciência, que eu sigo a minha… Mas se, tal como eu, sentirem que existe um limite para o tamanho dos “sapos” que conseguem engolir, juntem-se a este protesto pacífico na defesa do ensino público português.
Porque “há sempre alguém que resiste,
há sempre alguém que diz não”.
Obrigado.
 

Pedro Nuno Teixeira Santos, orgulhosamente professor

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4 responses

4 11 2008
INÊS TELES

O ensino em Portugal ainda não está perdido para os ineptos da 5 de Outubro e sequazes!!!!!
Ao ler este texto de Pedro Nuno T. dos Santos, jovem professor ( e digo jovem porque afirma ensinar há dez anos), fico com a reconfortável sensação de que quando eu me for embora ( dentro de 2 anos, se aguentar até lá…) ficam muitos e valentes resistentes, para batalhar contra a IDIOTICE, o OPORTUNISMO e o DESCARAMENTO de gente que se instala no poder e usa e abusa/abusa/abusa…da paciência de toda uma classe profissional, enquanto destroi a escola pública. Pior – destroi a capacidade de um PAÍS se tornar sustentável e cria as condições para daqui a 5, 10 ..anos Portugal ter 30 ou 40% de analfabetos funcionais. Não andámos 30 anos na DEMOCRACIA a acabar com os 30% de analfabetos herdados do ESTADO NOVO? Para quê? Para agora vir uma senhora completamente incompetente destruir todo um esforço de um PAÍS INTEIRO!!!!!
HAJA CORAGEM PARA LUTAR CONTRA ESTA EQUIPA DE LOUCOS INSTALADA na 5 de OUTUBRO!!!!!
Um abraço e vemo-nos TODOS no 8 de OUTUBRO em LISBOA
Inês

4 11 2008
Tiago

Bravo. Os meus sinceros parabéns para este colega. Conseguiu colocar em palavras os meus sentimento.
Comungo desta opinião.

Abraço
Tiago

4 11 2008
rosamariasilva

Colegas
Subscrevo tudo o que protestam.Agora é urgente manifestar a nossa revolta e repúdio pela forma como nos estão a aniquilar.Não podemos vergar.Da manif de 8 e, eventualmente de 15, depende a forma como iremos ser tratados no futuro.É preciso ter em mente que esta(s) é(são) a nossa derradeira tentativa de afirmar a nossa convicção de que queremos avaliação , mas não esta! Força colegas.O MOMENTO de fazermos História está aí! Sábado vamos unir as nossa vozes.
Bem hajam. Abraços solidários
Rosamaria

4 11 2008
Sandra Charrua

Realmente….Estas palavras foram usurpadas da minha mente!
Vamos arrasar em Lisboa….e, não precisamos de ser “hooligans”…
Espero que na próxima semana todos consigamos manter o espírito “Guevara pacífico” e não preenchamos mais grelhas!

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