DEBATES

Muitas têm sido as crónicas, artigos e colunas de opinião sobre o protesto dos professores contra as recentes investidas do Governo. Umas quase certas, outras erradas, outras ofensivas, outras ocas, outras pertinentes e outras para rir. É o caso desta! Eis a opinião de Gonçalo Bordalo Pinheiro na última revista SÁBADO á qual responderei de seguida:

bordalo.jpg

Exmo. Sr. Bordalo

Confesso que o seu apontamento de opinião me causou um ataque de riso como há muito não tinha, pois, afinal, isto não está nada para rir!

Bom, mas o meu amigo tem muito jeito para graxista de cágado; isso nota-se no jogo de palavras que experimenta, para persuadir os leigos leitores, e estes acharem que o senhor é um bom colunista. Aliás, eu até já inventei um partido novo para militantes como o senhor que proliferam, qual bazar chinês, pagos para opinaram sobre o que ignoram; chama-se PCP (Partido Colunista Português).

E o senhor ignora porquê?

Diz que a autoridade não se decreta (bonito!), conquista-se (lindo!), com coerência, determinação e competência (palmas!). Diga-me uma coisa: a quantas pessoas é que o senhor, com coerência, determinação e competência, tem de conquistar autoridade por dia? A 70, 80?… Ou se calhar só ao seu cão? O senhor já esteve numa sala de aula? O senhor tem uma poção mágica que me arranje para conquistar autoridade a um aluno mal intencionado que, seguro que o sistema apenas o protege e facilita, boicota e inquina todo o processo ensino/aprendizagem, a não ser por vias de facto?

Sr. Bordalo, está enganado. Em alunos decentes, com princípios adquiridos onde se devem adquirir e com um pingo de educação, a autoridade não se conquista; a autoridade reconhece-se!

Prossegue V. Exa a sua brilhante coluna dizendo que os professores têm de dar exemplos e não é com piqueniques anárquicos (esta foi a parte em que o meu riso atingiu o orgasmo) que eles se dão. Piqueniques anárquicos? Hã? Ó senhor Bordalo, deixe cá ver… Deve ser um piquenique em que um rouba o pão ao outro, alguém atira um pedaço de toucinho ao ar e 50 professores esganam-se até à morte para apanhá-lo… Será?

Por amor de Deus, senhor Bordalo!

Para si, 100 000 professores tinham de chegar ao Marquês, telefonar à mamã a pedir autorização para se sentarem na relva, rezar, quiçá, uma oração, comer uma sopa sem sal ou uns flocos de cereais… Assim estaríamos a ser um exemplo, não?

Senhor Bordalo, vamos lá acordar!

Eram cem mil pessoas com, pelo menos, a mesma dignidade que a sua, a reivindicar por uma avaliação justa, coerente, objectiva e que não tenha a castração de carreiras como único objectivo, percebe? Não deite essa posta de pescada de que os professores não querem ser avaliados; essa é a moda dos surdos e obtusos, senhor Bordalo!

Numa democrática e ordeira manifestação de descontentamento, o senhor queria ouvir o quê? Viva a ministra!!! Palmas para Sócrates!!! Espezinhem-nos que a gente gosta!!! Roubem-nos que «tasse» bem!!! No seu entender isso é que não era ser brejeiro, vulgar e histérico, não era senhor Bordalo?

Na segunda feira, senhor Bordalo, sentei-me em frente aos meus alunos e, para seu azar, a primeira coisa que lhes disse foi justamente que a marcha da indignação foi um exemplo puro de democracia e liberdade e que seguissem aquele exemplo no futuro, como a mais correcta e racional forma de discordar dos políticos que lhes condicionarem negativamente a vida. E, ainda para maior azar seu, senhor Bordalo, foi das aulas em que me senti mais realizado, porque até eles entendem uma coisa que só alguns colunistas e outras mentes contaminadas não entendem.

Termina V. Exa. a sua prosa com mais um atentado à razoabilidade! Então o senhor culpa os professores pelos chumbos, repetências e reprovações? Ó senhor Bordalo, sabe quem é que faz chumbar, repetir e reprovar? Sabe? São os professores, senhor Bordalo! Portanto, o senhor acha que existe em Portugal uma nova confraria de 150 000 pessoas; a confraria do masoquismo! Na minha terra, senhor Bordalo, os chumbos, para além da pesca e da pressão de ar, são consequências dos maus alunos e não dos maus professores. Por este exemplo se percebe o pantanal que vai na sua cabeça a este respeito.

Era tão fácil! Vamos lá passar os alunos todos para o senhor Bordalo dizer que os professores são bons. Bem, assim pensam os legisladores, já que não me espanta, na senda do sucedido, que daqui a nada saia uma lei a proibir reter alunos incondicionalmente. Digamos que será o nirvana! Portugal passará a ser um exemplo de sucesso! Os finlandeses emigrarão para cá! O Ministério condecorará todos os professores! A CONFAP rejubilará! Os colunistas passam a falar do que sabem!…

Pena é que nessa altura os professores serão, de facto, umas verdadeiras bestas aberrantes!

 

Paulo Carvalho

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Ouçam! Ouçam como é que um deputado (neste casa deputada) faz por merecer o que ganha!!!

 

18 responses

19 03 2008
carlos cravo

meu caro:

este Bordalo envergonha o genuíno…

abraço…

19 03 2008
AGVárzea

Que saudades dos Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro! Bordalos desses já não há! O texto do sr. Bordalo actual é a prova viva do sucesso escolar de quem, não o merecendo certamente, até escreve sem erros ortográficos num periódico, (provavelmente por via dos correctores informáticos de linguagem), mas com erros de análise enormes. Terá tido boas notas a Filosofia e a Matemática? É que quem escreve assim aparenta que não sabe pensar, não sabe raciocinar, não sabe relacionar, não sabe avaliar, não sabe comparar, não sabe escolher a atitude correcta relativamente a situações novas, mas sabe papaguear, mal, ao que parece, mas sabe. Quem assim o terá ensinado?
Se por acaso eu estiver errado (e do facto apresento as minhas desculpas), estaremos então muito provavelmente perante alguém que não logrou ultrapassar eventuais traumatismos de chumbos, ao que se nos afigura bem merecidos por quem nunca terá conseguido compreender a matéria e os conteúdos que seria de esperar apreendesse e aprendesse.

19 03 2008
Ana Isabel Pereira Fernandes

É com tristesa que esta cidadã se dirige a este colunistazeco com o objectivo apenas de lhe alertar para o facto de que uma geração que não respeite hoje os professores, se tornar numa geração que não respeite qualquer autoridade ou mesmo o poder político, no futuro. Podemos, assim, antever eventos semelhantes aos que ocorreram recentemente nos arredores de Paris.

Como não passo de uma “professoreca” lamento informá-lo que houve anos que paguei para poder trabalhar a centenas de quilómetros de casa sem qualquer tipo de ajudas para gasolina, portagens e aluguer de casa (mal sobrava para comer).
É claro que dar aulas é uma tão nobre tarefa, que jámais aspiro a que a entenda em frente ao sua maquininha de escrever ou computador( isoladinho do mundo sem fazer nada pelos outros)
Informo-lhe que os piqueniques a que fomos obrigados a recorrer se justificam pelo facto de não haver condições, em qualquer uma das estações de serviço por que passámos, para atender tanta gente.

E se o seu umbigo Lisboeta se esqueçe do povo português e dele pouco se orgulha, envergonhe-se, envergonhe-se dos que fazem piqueniques e contestem, os parolinhos. Envergonhe-se de ser português. É que também me envergonho que permitam que qualquer um, um perfeito desconhecedor daquilo que os professores contestam, um traumatizadinho dos seus tempinho de colégio, para quem sabe bem contestar tudo o que os outros são ou fazem e que refletem o seu vazio como pessoa.
Envergonho-me das suas inóquas palavras, cresça, viva, aprenda.

19 03 2008
isabel portugal

Caro colega,

Se da primeira resposta eu francamente apreciei, o mesmo já não poderei dizer desta. Passo a explicar:
O Sr. Bordalo pertence àquela categoria de pessoas abjectas que não merecem resposta e quando a merecem, não podemos descer ao nível dele!
Eu até compreendo a completa revolta, indignação para com estas abestuntas aves de palreio, contudo temos de nos conter, sob pena de descermos ao mesmo patamar e aí já não há nada a fazer.
Este pequeno (sim, porque é pequeno) grupo de pseudo-jornalistas ou cronistas não merece que gastemos o latim nas explicações, pois a sua profunda ignorância não lhes permite ver mais além e perceber que caminhamos a passos mui largos para um analfabetismo funcional com as novas propostas da ministra.

Sempre solidária…

19 03 2008
Sofia Pedro

Mais um exemplo de pura ignorância no que diz respeito ao actual estado da educação… Por ventura terá de caber a nós, professores, educar este tipo de indivíduos armados em literatos… E, de novo, mais uma resposta inteligente, tranquila – um verdadeiro “estalo de luva branca”. Parabéns!

20 03 2008
Professora

Mais uma excelente resposta! Parabéns!
Não encontro adjectivos para caracterizar o artigo.
A avaliar pelo que GBP diz, este senhor não deve ter autoridade nenhuma.
Será que comprende o que o Paulo escreveu?

20 03 2008
A. Carreto

Está claro que este bordalo nem para o chocalho das minhas bordaleiras serve.
Já tive a oportunidade de comunicar à revista, que assino, que este comentário nem para achincalhar serve. Que favores deve ele ter feito para lhe permiterem ser ‘ objector de consciência”, da consciência que não tem e falar do que não conhece.
Valeu outro art. da mesma revista para repor toda a verdade.
um abraço.

21 03 2008
Isabel P Ramos

Mesmo lendo a sua resposta, que apreciei,ao miserável artigo , continuo com o sabor amargo de sentir que a opinião pública está e continuará dividida em relação à nossa classe. Precisamos de empreender a gigantesca tarefa de esclarecer quem está às escuras ou de quem se agarrou aos chavões em que a comunicação social é exímia.É importante assinalar os artigos sérios e dar-lhes continuidade (José Madureira Pinto,Sociólogo,Público 8 de Março),é importante termos representantes nas mesas redondas etc que coloquem o enfoque nas questões de fundo e que o façam de forma inequívoca.Bem haja.

21 03 2008
Guida David

Talvez na segunda feira os professores não se tenham sentado em frente aos alunos para os ensinar a falar educadamente porque há coisas que não se ensinam, SENTEM-SE E VIVEM-SE… Será o caso, por exemplo, do amor, da amizade, da educação, entre muitos outros.
É isto que muitas vezes os professores tentam fazer e nessa segunda feira:
Talvez tenham aproveitado para falar com os alunos sobre DIREITOS, DEVERES E CIDADANIA.
Talvez também tenham aproveitado para lhes dizer que no início do ano são informados, por escrito, sobre a forma como vão ser avaliados e essa avaliação é analisada e discutida com eles.
Talvez tenham aproveitado para dizer que a avaliação de desempenho por objectivos, obriga à definição dos mesmos no início de um processo de avaliação e não no fim e é isso que fazemos com eles.
Talvez tenham aproveitado para falar de liberdade.
Talvez tenham aproveitado para mostrar que é importante participar activamente na sociedade mesmo prescindindo de um fim de semana de descanso.
Talvez tenham aproveitado para falar e ouvir os alunos.
Talvez tenham aproveitado para preparar os alunos para a vida e não para os teste e exames.
Talvez tenham conseguido finalmente verificar que os alunos conseguem questionar e discutir o mundo que os rodeia e concluir que o nosso trabalho é útil, pois essa é a postura correcta de um cidadão.
Talvez tenham finalmente conseguido não apenas ensinar, mas sim fazer com que os alunos aprendessem…

22 03 2008
Fernando Carvalho(professor)

É contra estas considerações abjectas que temos o dever de lutar.
E deveríamos, enquanto professores, entregar um modelo de avaliação ao Ministério para calar os ignorantes que objurgam sem fundamento.Mas um modelo com cabeça,tronco e membros.E temos todos os trunfos para o fazer.
Não dar as notas do 3ºperíodo era uma maneira de pressionar(por causa dos exames e das férias que maioritariamente são nos meses de Julho e Agosto).
Talvez assim conseguissemos que a carreira não fosse dividida em duas e as injustuças que para aí grassam.
Se não nos calarmos, dentro e fora do espaço escolar, temos todas as possibilidades de chegar a bom porto. Apesar do autismo da ministra e do 1ºministro…

22 03 2008
Helena Carriço

Felicito-o mais uma vez pela resposta dada a esse senhor bordalo. Já reparou que só agora entenderam que os professores são cruciais? Se não o fossemos não haveria tanto artigo escrito a nosso respeito!!!!!
PARABÉNS E CONTINUE POIS EU TAMBÉM NÃO ME CALAREI!

22 03 2008
Ilda Janeiro

Para o sr. Gonçalo um grande manguito, como aquele que o seu ilustre antepassado magnificamente imortalizou.
Um gesto vale mais do que mil palavras. E mais não digo !!!

25 03 2008
Isabel

Parabéns Caro Colega!…
Há pessoas cujos salários deveriam ser inversamente proporcionais às “bacurradas” ditas ou escritas…E tenho dito!

30 03 2008
Anabela Godinho

A velha máxima de ” Quem não se sente não é filho de boa gente”, nunca foi tão verdadeira. Claro que doi ler coisas deste tipo, quando pelo contrário, somos nós professores ( com o nosso empenho e dedicação exclusiva) que nestes ultimos anos temos segurado as “pontas” destas políticas de ensino em decadência, injectadas de poeiras para ir tapando os olhos à opinião pública (sabe-se lá com que sangue suor e lágrimas).
Claro que me revejo nas suas palavras. Bem haja.
Anabela

31 03 2008
Paulac

Apenas: “Obrigado pela grande resposta/lição (caso ele a entenda) que deu a este sr. Bordalo

17 11 2008
m gracinda

ÒH BORDÀ-lo está calado… centoe vinte mil PROFESSORES “é muita gente pra fazeres frente”

3 12 2008
irene

É lamentável, «gentinha» que nunca entrou dentro de uma sala de aula, tenha o desplante de criticar…
Eu gostava que essas pessoas dessem somente uma semana de aulas, com 7, 8, turmas, de 26 a 27 alunos cada, com N.E.E. à mistura e uma direcção de turma, tipo sobremesa… Gostaria de visualizar a carinha daqueles no final da semana… Mas para ser um pouco mais «altruista» adicionava-lhes para esse de semana nas «caraibas», corrigir entre 100 a 150 testes, mais os Trabalhos de Casa e de grupo… Mas pudemos ser um pouquinho mais condescendentes e juntar a gripe do filho mais novo, os anos do filho mais velho…
Pudemos também colocar mais uns uns gritos do marido, porque reclama atenção ( coitado!) e os telefonemas consectivos da mãe que tem 80 anos…
Pois é…
Esta «gentinha» esquece que os professores são…
Humanos,
Que tem familia,
Que tem direito a descansar…
irene pereira resende

3 12 2008
irene

E mais… Pessoas como esse Bordalo, há por aí aos montes que só criticam porque tenhem sopeiras para tudo até para lhes limpar o dito cujo…

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