QUAL FIDEL, QUAL SALAZAR… QUAL CARAPUÇA!
10 07 2008Comentários : 17 Comentários »
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Sabe mais que um miúdo de… 2 anos??? Vamos ver!
Terça-feira, 1 de Julho de 2008:
Estou eu a degustar a minha janta e a ver o dito concurso do Jorge Gabriel, programa que acho bastante engraçado, útil e instrutivo, no meio do aterro sanitário que é a TV tuga, e assisto a um belo exemplo daquilo em que Portugal se está a transformar. Tudo começa com um cavalheiro com o 12º ano completo, repito, 12º ano, director de um call center, que na primeira pergunta não sabia que 12 era o quádruplo de 3. Incrível não é? Mas nada que se compare com o que estava para vir.
Entra então em cena uma menina, com um ar pindérico QB, que, altivamente, disse que era estudante do curso de Matemática Aplicada. Atenção: ESTUDANTE DO ENSINO SUPERIOR DE MATEMÁTICA APLICADA.
Primeira pergunta: Complete: Fazer o bem, sem olhar a…
Comentário dela: «eh pá, deve ser algo terminado em… ar!!!
Fiquem sabendo que esta ESTUDANTE DO ENSINO SUPERIOR DE MATEMÁTICA APLICADA não sabe este curto e simples provérbio. Mas até aqui nada de anormal! Espreitou e seguiu.
Segunda pergunta: que nome se dá a cada grupo de 3 algarismos nos números? Fiquem sabendo que esta ESTUDANTE DO ENSINO SUPERIOR DE MATEMÁTICA APLICADA, repito, ESTUDANTE DO ENSINO SUPERIOR DE MATEMÁTICA APLICADA, não sabe o que são CLASSES de números. Copiou e continuou.
Entretanto perdi parte do programa (imagino o que perdi, mas não consigo encontrar a gravação do programa, nem no site da RTP sequer).
Quinta pergunta: como se chama o período político que vigorou em Portugal entre 1930 e 1974?
Comentário dela: hum… eh pá, deve ter algo a ver com Salazar, não? O Jorge Gabriel já lhe estava com um pó… ainda assim, com uma simpatia mal disfarçada lhe disse que Salazar desapareceu em 70 e até 74 foi Marcelo Caetano. Mas ela insistiu e respondeu: SALAZARISMO.
O Jorge Gabriel sentiu um alívio enorme e mandou-a embora. Fiquem sabendo que esta ESTUDANTE DO ENSINO SUPERIOR DE MATEMÁTICA APLICADA nunca ouviu falar no Estado Novo.
Moral da História 1) Há pessoas que não têm mesmo um pingo de vergonha na cara e, sabendo que nada sabem, ainda se expõem publicamente em concursos TV de cultura geral. Se eu conhecesse tal donzela, fazia-lhe o favor de lhe pregar duas valentes lambadas!
Moral da História 2) Eis um belo exemplo daquilo em que este país se está a transformar: um bando de gentalha mal criada e educada, que à sombra de um facilitismo sobranceiro, com o conluio do Ministério, progridem academicamente, sabendo assinar de cruz e pouco mais. Depois admiram-se com o desemprego entre licenciados…
Num país onde as licenciaturas saem no OMO e no KINDER SURPRESA, e as escolas estão proibidas de obrigar quem não sabe, a saber um pouco mais , caminhamos para um Estado absolutamente imbecil e ignorante.
Continue, Sra Ministra! Esteja descansada, porque tudo isto é culpa dos professores!
Paulo Carvalho
Há uns dias uma ilustre colega enviou-me este texto que, não sabendo o seu autor, acho absolutamente genial, pois apesar de uns laivos de humor à mistura, o que é facto é que é absolutamente real. No final tem um desafio aos visitantes deste post.
Então é assim:
Situação: O Pedro está a pensar ir até ao monte depois das aulas, assim
que entra no colégio mostra uma navalha ao João, com a qual espera poder
fazer uma fisga.
Ano 1978: O director da escola vê, pergunta-lhe onde se vendem, mostra-lhe a
Sua, que é mais antiga, mas que também é boa.
Ano 2008: A escola é encerrada, chamam a Polícia Judiciária e levam o Pedro
para um reformatório. A SIC e a TVI apresentam os telejornais desde a porta da
escola.
Situação: O Carlos e o Quim trocam uns socos no fim das aulas.
Ano 1978: Os companheiros animam a luta, o Carlos ganha. Dão as mãos e
acabam por ir juntos jogar matrecos.
Ano 2008: A escola é encerrada. A SIC proclama o mês anti-violência
escolar, O Jornal de Notícias faz uma capa inteira dedicada ao tema, e a TVI
insiste em colocar a Moura-Guedes à porta da escola a apresentar o telejornal,
mesmo debaixo de chuva.
Situação: O Jaime não pára quieto nas aulas, interrompe e incomoda os
colegas.
Ano 1978: Mandam o Jaime ir falar com o Director, e este dá-lhe uma bronca de
todo o tamanho. O Jaime volta à aula, senta-se em silêncio e não interrompe
mais.
Ano 2008: Administram ao Jaime umas valentes doses de Ritalin. O Jaime parece
um Zombie. A escola recebe um apoio financeiro por terem um aluno incapacitado.
Situação: O Luis parte o vidro dum carro do bairro dele. O pai caça um
cinto e espeta-lhe umas chicotadas com este.
Ano 1978: O Luis tem mais cuidado da próxima vez. Cresce normalmente, vai à
universidade e converte-se num homem de negócios bem sucedido.
Ano 2008: Prendem o pai do Luís por maus tratos a menores. Sem a figura
paterna, o Luís junta-se a um gang de rua. Os psicólogos convencem a sua
irmã que o pai abusava dela e metem-no na cadeia para sempre. A mãe do Luís
começa a namorar com o psicólogo. O programa da Fátima Lopes mantém durante
meses o caso em estudo, bem como o Você na TV do Manuel Luís Goucha.
Situação: O Zézinho cai enquanto praticava atletismo, arranha um joelho. A
sua professora Maria encontra-o sentado na berma da pista a chorar. Maria
abraça-o para o consolar.
Ano 1978: Passado pouco tempo, o Zézinho sente-se melhor e continua a correr.
Ano 2008: A Maria é acusada de perversão de menores e vai para o desemprego.
Confronta-se com 3 anos de prisão. O Zézinho passa 5 anos de terapia em
terapia. Os seus pais processam a escola por negligência e a Maria por trauma
emocional, ganhando ambos os processos. Maria, no desemprego e cheia de
dívidas suicida-se atirando-se de um prédio. Ao aterrar, cai em cima de um
carro, mas antes ainda parte com o corpo uma varanda. O dono do carro e do
apartamento processam os familiares da Maria por destruição de propriedade.
Ganham. A SIC e a TVI produzem um filme baseado neste caso.
Situação: Um menino branco e um menino negro andam à batatada por um ter
chamado ‘chocolate’ ao outro.
Ano 1978: Depois de uns socos esquivos, levantam-se e cada um para sua casa.
Amanhã são colegas.
Ano 2008: A TVI envia os seus melhores correspondentes. A SIC prepara uma
grande reportagem dessas com investigadores que passaram dias no colégio a
averiguar factos. Emitem-se programas documentários sobre jovens
problemáticos e ódio racial. A juventude Skinhead finge revolucionar-se a
respeito disto. O governo oferece um apartamento à família do miúdo negro.
Situação: Tens que fazer uma viagem.
Ano 1978: Viajas num avião de TAP, dão-te de comer, convidam-te a beber seja
o que for, tudo servido por hospedeiras de bordo espectaculares, num banco que
cabem dois como tu.
Ano 2008: Entras no avião a apertar o cinto nas calças, que te obrigaram a
tirar no controle. Enfiam-te num banco onde tens de respirar fundo para entrar
e espetas o cotovelo na boca do passageiro ao lado e se tiveres sede o
hospedeiro maricas apresenta-te um menu de bebidas com os preços inflacionados
150%, só porque sim. E não protestes muito pois quando aterrares enfiam-te o
dedo mais gordo do mundo pelo cú acima para ver se trazes drogas.
Situação: Disciplina escolar:
Ano 1978: Fazias uma asneira na sala de aula. O professor espetava duas putas
de duas lostras bem merecidas. Ao chegar a casa o teu pai dava-te mais duas
porque ‘alguma deves ter feito’
Ano 2008: Fazes uma asneira. O professor pede-te desculpa. O teu pai pede-te
desculpa e compra-te uma Playstation 3.
Situação: Chega o Outono
Ano 1978: Chega o dia de mudança de horário de Verão para Inverno. Não se
passa nada.
Ano 2008: Chega o dia de mudança de horário de Verão para Inverno. As
pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão e caganeira.
Situação: O fim das férias.
Ano 1978: Depois de passar 15 dias com a família atrelada numa caravana
puxada por um Fiat 600 pela costa de Portugal, Terminam as férias. No dia
seguinte vais trabalhar e ponto final.
Ano 2008: Depois de voltar de Cancún de uma viagem com tudo pago, Terminam as
férias. As pessoas sofrem de distúrbios de sono, depressão, seborreia e
caganeira.
That´s all folks!
DESAFIO: Convidam-se os visitantes a colocarem, nos comentários a este post, novas situações que achem dignas do quadro de honra, com as devidas diferenças entre 1978 e 2008. No final será eleita a melhor, que terá honras de post à parte e em destaque!
Paulo Carvalho
Isto é no Brasil, mas será a realidade em PORTUGAL muito em breve, com estas políticas de Educação.
Paulo Carvalho
Ouvi ontem a notícia de que está a ser feito o caldinho para fundir o 1º e 2º ciclos num só!
Assim que ouvi isto disse: Eh pá, finalmente uma medida de jeito!
Contudo, qual não foi o meu espanto quando ouço o Sr. Albino (sem surpresas) apoiado por outros cérebros de créditos firmados no ramo educacional (esse sim, com surpresa) e o próprio Conselho Nacional de Educação a partilharam a ideia; e que ideia?
Fundir os seis primeiros anos do Ensino Básico, mas transformando-os no actual 1º ciclo, com apenas um professor titular da turma durante os seis anos!
De tão inacreditável proposta, eu acredito que jamais algo parecido se possa consumar!
Eu ando há mais de 10 anos a dizer que o cancro do ensino em Portugal começa nessa aberração que é o modelo que temos instalado no 1º ciclo em que um desgraçado de um professor tem a seu cargo o trabalho de dez ou mais pessoas, tendo de, simultaneamente, ser professor de Português, Matemática, Estudo do Meio, quatro Expressões, Formação Cívica, Estudo Acompanhado, Área de Projecto e, como se não bastasse, multiplicar isto tudo por dois, três ou quatro, consoante o número de anos lectivos que tem simultaneamente na sala!
Será que não há uma cabeça (umazinha que seja) com responsabilidades políticas e legislativas que se aperceba que isto não é possível? Será que não há uma alma caridosa que constate que, por muito heróis e heroínas que sejam os professores do 1º ciclo (e são-no) não é possível preparar alunos nestas condições para chegarem ao 2º ciclo com as bases necessárias?
Ora, como o Sr. Albino e companhia acham que isto é que é ensino de qualidade, querem alastrar a aberração ao 2º ciclo, porque acham que as criancinhas são muito traumatizadas na transição entre os dois ciclos. Querem, portanto, um professor (que professor será?) a leccionar todas as áreas do 2º ciclo aos meninos. Portanto, Srs. Professor de… sei lá… Educação Física, preparem-se para dar Matemática ao 6º ano!
Mais uma vez digo que o absurdo, o aberrante, o torpe, o ridículo que rodeia tal ideia, impedirá que jamais alguém se atreva a pô-la em prática.
Voltando ao início, quando disse que fiquei contente com a ideia de fundir os dois ciclos, foi pela simples razão de defender precisa e absolutamente o contrário de tal aberração, ou seja, quando estes mentecaptos políticos perceberem que dinheiro gasto em Educação é um investimento (aprendam com os nórdicos) e construírem Centros Educativos ou Escolares com 6 anos lectivos, devidamente coordenados, encadeados e sequenciados transversalmente, mas devidamente seccionados por áreas disciplinares desde o 1º ano, com cada professor a dedicar-se por inteiro a uma área, interligando-a com as outras através de contacto permanente com os colegas de docência (aí sim teríamos reuniões produtivas), estaríamos no início da mudança.
Mas essa medida precisa de, pelo menos, duas premissas que nenhum político tem coragem de tomar: primeiro transformar esse «lindos» edifícios do plano dos centenários e outros mamarrachos similares que pululam nas aldeias, naquilo que quiserem menos em escolas, enfrentar a populaça que se insurgirá com, pelo menos, a mesma firmeza com que afrontam os professores; e em segundo lugar, investir muito mais em meios logísticos e humanos para, depois de construídos, apetrechar esses Centros Escolares com todas as condições necessárias a um ensino de qualidade.
Esta ideia ninguém me tira: quando três sectores da Educação andarem satisfeitos e trabalharem com a alegria de missão cumprida, teremos um Educação de sucesso: alunos, professores e Órgãos de gestão; o Ministério? Esse não interessa para nada, a não ser para aquilo que foi inventado: gerir o sistema externamente, pagar a quem deve e borrifar-se para estatísticas, pois elas estariam boas e recomendar-se-iam!
Se alguém me conseguir provar o contrário, eu retiro-me e vou trabalhar para as obras, pois não percebo mesmo nada de Educação.
Paulo Carvalho
Exmo. Sr. Rangel:
Não sou uma figura pública como V. Exa., nem tenho um jornal que acolha as minhas opiniões. Felizmente existe hoje a blogosfera e os amigos para publicar o mais possível a nossa opinião; espero que esta carta chegue até si!
Sou apenas um dos 143 000 professores deste país e um dos 100 000 que estiveram na Marcha da Indignação no dia 8 de Março, dia em que fui brindado com o seu artigo de opinião a que batizou de «HOOLIGANS EM LISBOA». Ei-lo:
Como deve estar à espera, depois daquilo que escreveu, ou coloca uma venda nos olhos e uns tampões nos ouvidos ou terá de ver e ouvir os argumentos dos visados. Como quem não se sente não é filho de boa gente, e fui um dos seus alvos, o seu artigo merece-me uma resposta, bem ao estilo político e jornalístico, em dez breves pontos. Está preparado? Cá vai:
1) A sua legitimidade para me chamar «hooligan» é a mesma que eu tenho para lhe chamar palerma, idiota e atrasado mental! Repito: a legitimidade é exactamente a mesma!
2) A sua legitimidade para me chamar comunista e que o Prof. Mário Nogueira (não é Sequeira, sr. Rangel) é um assalariado do PCP e que tal partido alugou 600 autocarros para a manifestação, é a mesma que eu tenho para lhe chamar fascista, assalariado do PS e alugado por este partido para emitir estas imundas alarvidades. Repito: a legitimidade é exactamente a mesma!
3) Os professores e os empregados da Lisnave são cidadãos dignos, que trabalham toda a vida para sustentar as suas famílias com ordenados por vezes miseráveis, não são jornalistas de segunda que andam à crava de pequenos tachos de ocasião, depois de fracassarem pessoal e profissionalmente à frente de grandes cadeias de televisão, com ordenados de rei para gastar em opulentas noitadas algarvias!
4) A maioria dos professores que V. Exa diz ainda terem dignidade, comparando-os aos seus, somos todos nós, Sr. Rangel, porque somos 143 000, estavam lá 100 000, sendo que dos 43 000 que não estavam certamente 40 000 não estiveram apenas de corpo e os restantes 3000, ou por aí, serão os inevitáveis fundamentalistas partidários, cuja religião PS lhes ofusca a lucidez!
5) V. Exa nunca pertenceu à nossa classe! V. Exa foi professor, mas universitário e, não lhe retirando mérito pela formação que isso permitiu, fique sabendo que ser professor universitário nada tem a ver com o que se passa nas nossas salas de aula, onde todas as crianças e jovens têm lugar, os bons, os maus, os educados, os mal-educados, os civilizados, os selvagens, os ricos, os pobres, os inteligentes, os deficientes, os meus filhos, os seus filhos… Enfim, não se trata de um lugar onde uma clivagem por resultados escolares, permite que tenhamos uma sala com 20 ou 30 alunos com toda a socialização feita e a quem basta dar bibliografia e pouco mais!
6) V. Exa ignora por completo o que o ME quer impor nas escolas e aos professores, pois isso sim, é que favorecerá a incultura, deseducação, a anarquia pedagógica, em que o obrigatório facilitismo formará uma geração de humanoides completamente ocos de valores, cultura e sabedoria; eu sou um produto do sistema que V. Exa acusa de iníquo e sei o que significa dignidade, respeito, admiração, ponderação, civismo, tolerância… enfim, tudo o que V. Exa não revela, na sua miserável crónica!
7) Vergonha devem sentir os cidadãos portugueses de terem de levar com opiniões de jornalistas ( esses sim, é que são pseudo) completamente esventrados de sensatez, isenção e responsabilidade. Este artigo de V. Exa é o epíteto do desnorte e testemunho de um intoxicado intelecto!
8 ) A Ministra é corajosa e determinada? Estamos de acordo. Acontece que V. Exa confunde estes conceitos com clareza, responsabilidades e, sobretudo, com justiça e sentido de visão estratégica para a Educação. Todos os grandes facínoras políticos da História eram corajosos e determinados!
9) Todos os que V. Exa chama estúpidos e que, sendo do PSD, do PCP ou daquilo que o você quiser, apoiam e compreendem a causa dos professores, se o fazem por antipatia política ou oportunismo, e sei que os há, tal adjectivo assenta-lhes que nem uma luva; aos restantes, que são infinitamente mais, não os confunda com um espelho!
10) V. Exa pertence, ou pelo menos pertenceu, a uma recente classe de portugueses, muito inferior à dos professores, quer em número quer em dignidade, cujo novo - riquismo aliado ao corrupto mercado da imagem, fazem de vós uma praga infestante para o cidadão comum, que luta todos os dias contra as dificuldades de um país minado por políticos fajutos e incompetentes e por um jornalismo bacoco e de algibeira, do qual V. Exa é um belo protagonista!
Paulo Carvalho
Crónica de E. Rangel de Sábado 15
No meio deste pantanal em que anda a Educação em Portugal e desta verdadeira guerra civil que nos foi declarada pelo Valt… - oh!… desculpem - pela Ministra da Educação, assumo-me como um professor derrotado! Alto, não dêem já ao termo aquele que normalmente se dá! Trata-se de outro tipo de derrota que sinto e vou tentar explicar nestas linhas, aludindo a algumas considerações mais do que repisadas pela opinião pública, mas sobretudo a algo que considero o cerne da questão e, incrivelmente, parece passar despercebido em todas as conversas e debates com que somos metralhados.
Falava eu na derrota que sinto enquanto professor, mas receio que a sinta enquanto cidadão português, pois assisto a um apodrecimento social, político e, pior do que estes, mental e cultural da sociedade portuguesa, cancro que me parece afectar a maioria dos países ocidentais e ditos desenvolvidos.
Ora, se a epidemia é também cultural é, forçosamente, educacional pois a Escola é, ou deveria ser, o principal potenciador de cultura cívica, instrução, sabedoria, enfim, de Educação! Mas tristemente não o é! E não o é, porque as escolas são hoje edifícios pejados de gente que para ali se dirige por mera rotina diária, ignorando por completo o conceito para o qual se inventou a Escola.
A relação entre Professores e Alunos chama-se Processo Educativo. Pressupõe-se (ou melhor, pressupunha-se) que os primeiros eduquem os segundos; os segundos sejam avaliados pelos primeiros e os primeiros sejam avaliados por aquilo que fazem aos segundos; agora pretende-se que os segundos sejam cada vez menos avaliados pelos primeiros; que os primeiros sejam cada vez mais avaliados por aquilo que fazem aos segundos; que os segundos avaliem o primeiros, mesmo sem querer, pois bastam os seus resultados e assiduidade para tal; que os pais dos segundos avaliem os primeiros; que o Ministério avalie os primeiros pela avaliação que estes fizeram aos segundos… enfim… um chorrilho de trapalhadas onde salta à vista que no processo educativo idealizado por este Governo, quem tem de ser avaliado é quem ensina e menos quem aprende.
Ora, eu podia agora dizer aqui mil coisas, já mais do que ditas por todos, mas, vou apenas dizer algo que me parece passar teimosamente ao lado de todas as conversas sobre este assunto.
Será que ninguém percebe, ou quer perceber, que neste processo todo de avaliação docente se está a ignorar aquela que é a maior variável em questão, ou seja, as características de cada aluno? Se eu estivesse cara a cara com a Ministra, apenas lhe dizia isto: olhe, eu gostava de avaliar a senhora enquanto professora, durante uma aula, mas eu é que escolho os alunos, ok? Depois avalia-me a senhora a mim, mas continuo a ser eu a escolher os alunos, ok? No final veremos quem é melhor professor, se eu ou a senhora!!!Será que ninguém entende que se um professor tiver o azar de ser avaliado numa aula dos selvagens do 6ºP pode ter uma má nota, quando esse professor é um profissional excelente no 5ºR, onde os alunos sabem ser e estar e impera o civismo e o respeito, e não estava lá nenhum avaliador para ver?
Será que ninguém entende que o Augusto Inácio quando deu o título ao Sporting passados 19 anos de jejum, foi considerado um herói e seis meses depois foi despedido por maus resultados! O Inácio era o mesmo, mas, ainda me lembro bem, mais de metade da equipa foi vendida e os novos jogadores eram muito mais fracos; como sempre acontece, avalia-se o treinador e despede-se, pois é muito mais fácil do que avaliar 20 jogadores e despedi-los, mesmo estando conscientes da aberração que isso constitui.
Na Educação passa-se exactamente o mesmo e este método de avaliação docente padece deste cancro. Ignora-se por completo a mais forte e importante variável de todo o processo - o aluno! É muito mais fácil dizer que o professor X é incompetente, pois deu uma série de negativas, do que assumir que essas notas foram dadas a pessoas, que não têm qualquer motivação escolar, a maior expectativa de vida que têm é ansiar por um telemóvel melhor que o colega de carteira, fazem da escola uma colónia de férias e onde, sem rei nem roque, fazem de tudo menos trabalhar em prol da sua formação.
Cairia o Carmo e a Trindade se a Ministra propusesse uma lei (semelhante à que se propala para os docentes) em que um aluno que fosse um verdadeiro indigente na escola, desrespeitasse tudo e todos, pusesse em causa a integridade física e intelectual de colegas e professores, enfim, fosse um péssimo aluno, poderia ser expulso do sistema.
No último «Prós e Contras» estavam lá representantes de toda a comunidade escolar para falar de avaliação de professores; até Presidentes de Câmara falaram de avaliação de professores; no entanto ninguém deu por falta de representantes dos principais clientes deste serviço - os alunos! Muito teria eu gostado de ver na primeira fila dois alunos escolhidos de uma turma em que um deles fosse exemplar a todos os níveis, e outro colega - um mau aluno; muito teria eu gostado de ver a Fátima C Ferreira perguntar-lhes sobre determinados professores que ambos têm! Não esquecer o factor «exposição pública» que muito condicionaria, por certo, as opiniões do mau aluno; ainda assim, muito teria eu gostado de ver!
Será que ninguém entende que não é justo avaliar alguém segundo critérios e variáveis que lhe são alheios e incontroláveis?
Eu gostava que o Governo avaliasse era o estado em que a cultura portuguesa se encontra, em que as pessoas são socializadas por frenéticos fenómenos de competição e consumismo, em que os valores, o civismo e o respeito há muito foram esquecidos e cujo resultado é toda uma geração de crianças e jovens contaminada por aberrantes modas e estereótipos absolutamente à prova de Educação. E, meus amigos, mandem cá os professores da Finlândia educá-los que eu quero ver os resultados; ou melhor, mandem-nos, a nós, os tão propalados maus professores portugueses, para a Finlândia e verão…
Será que ninguém entende que com a mentalidade e cultura de sociedade que temos não há sistema que resista? Maus professores? Claro que os há, mas há maus profissionais em tudo e não há este regabofe todo, como com os docentes! Então na classe política, é mais fácil contar os bons e, no entanto, o zé povinho avalia-os bem pois até votam neles.
Meus senhores: Acordem de vez para a realidade! Os professores portugueses são iguais aos outros todos. Não admito ser culpado pela degradante cultura instalada e muito menos que me exijam dar boa educação a alunos que, pura e simplesmente, a recusam. Os professores existem para ensinar alunos; a humanização e a socialização, essas vêm de casa e da sociedade; os professores podem incrementá-las mas nunca criá-las!
Dêem-me alunos civilizados, motivados para aprender, escolas com condições de trabalho, pais responsáveis e conscientes das suas funções a montante da escola e venham avaliar-me, caraças!!!
Paulo Carvalho
Na segunda, dia 17 assistiu-se a mais um debate televisivo sobre Educação em Portugal. Aquele programa que por muitos é chamado de «Prós e… prós» teve mais uma vez a preocupação de convidar para o painel gente que não incomodasse muito a Sra.Ministra. Repare-se que o Dr. qualquer coisa Canavarro, ex-secretario de estado do PSD, senhor de um discurso muito académico e de uma fluência verbal notável, passou o programa a gabar a obra da Sra. Ministra e só no final quando esta lhe pisou dois ou três calos, é que o Dr. se sentiu atacado pessoalmente e assistiu-se a uma especie de peixeirada sobre uma coisa que não interessava nem ao menino jesus…
Agora, houve sim uma diferença relativamente a outros programas similares; finalmente um sindicato tem à frente alguém com coragem e com um discurso mordazmente verdadeiro. Falo de Mário Nogueira da fenprof que foi, para mim, a estrela da noite, pois foi a única pessoa que até hoje venceu aos pontos a Ministra em debate público. O K.O. final foi quando, após mais umas estocadas dadas por Mário Nogueira, a Ministra disse: -Não tenho nada a dizer!!! No entanto, o que é facto é que no terreno das operações quem manda é ela e ela é que vence sempre.
De resto, é impressionante como esta senhora faz lembrar a orquestra do titanic, ou seja, o barco a afundar-se e eles a tocarem. Vem esta senhora falar em comemorar quando sabemos que a Educação em Portugal continua um brutal fracasso; vem esta senhora atribuir a culpa desse fracasso aos professores, lançando-lhes ataques de morte de uma forma cega, prejudicando bons e maus e ninguém lhe consegue dizer, nem ela entende que o grande culpado deste triste fenómeno não está na escola. Está na família e, em primeira instância, na cultura do país. Como se pode acusar um professor de ser mau profissional, chumbando um aluno que se está completamente nas tintas para a vida escolar, quando na mesma turma o mesmo professor tem alunos brilhantes. Pergunto: quem mudou? O professor é o mesmo, não? Isto é tão simples de constatar e não vejo ninguém capaz de dizer isto à Ministra.
Eu gostava de ver esses catedráticos (Ministra incluida) que falam na poção mágica para motivar alunos, à frente de uma turma de 20 indigentes, cuja principal expectativa é ter um telemóvel melhor que o do colega ou um brinco de lata espetado na orelha e estando no 7º ou 8º ano não sabem ler nem escrever e nós professores somos praticamente ameaçados se chumbarmos estes alunos.
Por favor, não brinquem comigo. Enquanto este país continuar a ser regido por uma mentalidade bacoca, em que a peocupação das famílias é dar aos filhos todos objectos mundanos para que eles pareçam ricos como os outros e não lhes incutirem pricípios de valores humanos, hábitos de esforço e trabalho para vencer na vida, os professores continuarão a ser maus. No entanto, quando as famílias têm uma linha de rumo, colocam a cultura e o civismo acima dos telemóveis e das consolas, educam os filhos em vez de deixarem que a TV e a NET lhes tomem o lugar…. que curioso… aí os mesmos professores já são bons! E esta hein???
Paulo Carvalho